sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Capítulo 02

Rio de Janeiro, 9 de Março de 2006

   Na terça, alguns calouros foram procurar os jogadores do time. Anderson, até então o amigo mais próximo de Gustavo, foi o primeiro a falar com os veteranos. Mais três garotos se dirigiram até eles: Marcos, João e um outro Marcos. Os quatro fariam uma espécie de jogo treino contra o time atual. Não havia técnico na equipe, portanto eram os próprios jogadores que se organizavam e decidiam quem participaria da equipe ou não.
   - Galera, vocês têm goleiro? Só tem quatro aí.
   - Bom, eu agarro. A gente pode jogar só com três, se for o caso. Vai ser coisa rápida, né? - respondeu João.
   - Não, vamos fazer assim. Bruno, joga no time deles. É bom que, jogando no mesmo lado que os caras, dá pra ver se eles sabem mesmo ou não.
   - Certo, Alê. Então vamo lá, pessoal - Bruno se dirigiu ao outro time, se apresentou a todos e começaram a jogar. Gustavo observava atentamente, mas com olhos de torcedor. Sua cabeça fervilhava de ideias, enquanto os quatro calouros mostravam muita habilidade contra o time. Algo lhe dizia que essa nova geração poderia mudar a maneira do colégio ver os jogos de futebol.
   Cerca de vinte minutos depois, Bruno, que jogava do lado dos calouros, pediu para que se encerrasse a partida. Queria falar com seus amigos de time, e comunicar a decisão aos aspirantes a novos jogadores.
   - Pessoal, a gente se amarrou em jogar com vocês, e acho que todo mundo tem potencial pra jogar no time. Os quatro representaram muito e nos surpreenderam. Não quero que os outros pensem que qualquer um vai jogar aqui, até porque, não queremos superlotar o time. Mas pela iniciativa dos quatro, e pela qualidade de vocês, acho que agora nosso time tem oficialmente dez jogadores - proclamou Alessandro, que era goleiro e capitão do time. A decisão foi muito comemorada, principalmente por Marcos, que Gustavo percebeu ser o mais fanático por futebol, e mais animado para entrar na equipe.
   Enquanto ainda conversavam, Gustavo - o único que ficou até o fim do treino, dessa vez - se aproximou dos jogadores e resolveu puxar assunto.
   - E aí, rapazeada.. eu sei que eu não jogo, mas posso me chegar aqui?
   - Claro, irmãozinho! Senta, diz aí.. o que achou?
   - Me amarrei! Eu não sei se comentei com vocês, mas já falei com o Anderson e com o João, que são da minha turma. Sou muito fã de futebol, frequentador de estádios, um torcedor assíduo. E nesses dias eu andei pensando, e resolvi comentar com vocês: agora que o time fechou com vocês dez, por que não vamos na diretoria pedir um investimento aqui na quadra e na estrutura do time?
   - Cara, a gente tá querendo fazer isso a algum tempo, mas acontece que os próprios alunos daqui não acompanham o time, os professores de educação física não dão aquela moral, e aí a gente acaba ficando sem uma base pra pedir alguma coisa, sacou? - respondeu Ricardo, aluno do 2º ano e artilheiro do time.
   Gustavo, apesar de compreender a situação, seguiu com sua ideia:
   - É, eu tava reparando que a galera não ficou tão animada a princípio, perguntamos pra outros veteranos, e eles falaram que até gostariam de ver os jogos, só que não gostam de se deslocar pra outras quadras. Mas acho que podemos criar um ciclo interessante. Eu tenho umas ideias, podemos falar com o pessoal na internet, espalhar uns cartazes, ir nas salas. Aí mobilizamos todo mundo e fazemos um abaixo assinado, convocamos todo mundo, e na festa do trote, já que a diretoria vai estar toda aqui, falamos com eles.
   - Você pensou em tudo? - comentou Anderson, em meio a risos de todos.
   - O cara é genial, rapaz! Brother, pode contar com a gente! Nós somos os maiores interessados, e você com certeza já é nosso torcedor número um! Agora no turno da tarde vamos começar nossa campanha.. você tá livre pra ficar por aí? - perguntou Alessandro.
   - Com certeza eu tô! Já vim preparado pra isso! - Gustavo ficou extremamente feliz com a reação de todo o time. Havia preparado os discursos e ideias durante os últimos dias, e agora seria sua chance de colocar tudo em prática.
   Começaram passando de sala em sala no turno da tarde, comunicando aos alunos que gostariam de pedir investimentos para o time de futebol, incluindo as obras na quadra. Pediram para que todos comparecessem aos treinos, e que se esforçassem para ir aos jogos naquele ano. Avisaram que o time estava unido, forte e determinado a jogar para representar o nome da escola. E passaram o abaixo assinado por turmas dos três anos. Naquela tarde, e na manhã seguinte, conseguiram mais de 400 assinaturas. Quase o número total de alunos da escola, que não era muito populosa.
   Ao longo da tarde de sexta-feira, colocaram cartazes pela escola, onde falavam sobre a festa do trote, e sobre o futebol na escola. Sentiam pelos corredores, que os alunos começaram a se empolgar com a ideia. Todos perguntavam pelos jogadores, sobre quando seria o treino. Gustavo sentia que sua ideia tinha dado certo, só faltava o passo mais importante: levar o projeto até a diretoria.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Capítulo 01

Rio de Janeiro, 06 de Março de 2006

   - Mãe, to indo! Beijão!
   - Beijo, filho! Boa aula..
   - Aula não, né mãe? Primeiro dia, hoje vai ter no máximo um trote, algo do tipo. Aula mesmo, só semana que vem. Pode apostar.
   Gustavo se preparava para o seu primeiro dia de aula no ensino médio. A ansiedade era grande para conhecer novas pessoas, um novo mundo, matérias provavelmente mais difíceis, e talvez tudo o que havia visto em filmes estrangeiros – que, no fundo, ele sabia não ser tão correspondente com sua futura realidade.
   Tomou seu café, colocou uma camisa branca e foi. Logo de cara, estranhou o ônibus cheio, já que até o fim do ensino fundamental, só estudara no próprio bairro. Agora, teria que começar uma rotina um pouco mais “cansativa”, pelo menos nesse ponto. Por sorte, havia conseguido uma vaga numa escola não tão longe de sua casa. Morava em Cascadura, e estudaria agora em Maria da Graça.
   Chegou muito cedo, ainda faltava cerca de meia hora para os portões do colégio se abrirem. Na porta, só havia “calouros” como ele. Com certeza, quem já estava no 2º e 3º anos, não teria motivo para chegar tão cedo lá. Escolheu um canto qualquer da pracinha em frente ao colégio, se sentou e ficou por ali, esperando e observando.
   Pouco a pouco, via mais calouros e alguns veteranos chegando. Esses eram mais fáceis de identificar, pelo uniforme (já que ninguém recebera uniformes antes das aulas começarem) e, principalmente, pelo comportamento solto e sociável. Chegavam as vezes em bandos, gritando, matando saudades e compartilhando histórias das férias.
   Os portões do colégio se abriram, e logo os alunos do 3º ano se agruparam num canto próximo a uma quadra em obras, ao fundo do pátio principal. Era provável que estivessem tramando alguma coisa, mas no fundo, os calouros não tinham tanto medo. As histórias sobre trotes no ensino médio eram lendas entre os adolescentes, e aquilo seria quase como um ritual de iniciação obrigatório para eles. Sem o qual, não se sentiriam parte do todo. Alguns dos veteranos saíram do grupo, se dirigiram aos calouros e foram falando:
   - Pessoal, sejam bem-vindos ao Horacio Macedo. Aqui, vocês vão viver três anos inesquecíveis. Não tenham medo de nós. Aliás, tenham medo, mas não muito. Ninguém vai ser agredido, nem colocado pra pedir dinheiro no farol. Nosso objetivo é interagir com vocês, fazer amizades, e mostrar como as coisas funcionam por aqui. Mas, vamos fazer isso de uma maneira divertida, principalmente para nós. Afinal, vocês são inferiores e nós damos as ordens por aqui. E antes de qualquer coisa, vamos mostrar um pouco da escola para vocês.
   Caminharam mostrando primeiro as mesinhas na parte inferior da escola, depois subiram e passaram pelos corredores de salas de aula, apresentando os professores (que já conheciam como as coisas funcionavam ali, e não tinham esperanças em dar aula alguma naquela semana), funcionários, e a sala da diretoria, vazia. - O diretor é muito legal, mas dificilmente você o verá por aqui – comentou um dos alunos que fazia a apresentação.
   Desceram as escadas, mostraram o bosque, um lugar muito simpático cheio de árvores, ambiente muito propício para se fazer muitas coisas, e também para não fazer nada. Depois, seguiram ao fundo do colégio para mostrar a quadra.
   - Seguinte, galera. Não sei se vocês já estão sabendo, mas no ensino médio as escolas públicas e particulares disputam campeonatos de futebol entre si. Nosso colégio tem um time, espero que vocês se interessem por nos ver treinar e jogar, e se alguém quiser, que também possa fazer parte do time. Não tem distinção de idade nem série, é só chegar, treinar com a gente e jogar. O único problema é que, como vocês notaram, nós não recebemos muito apoio da diretoria. A quadra está com essas obras inacabadas, sem muita condição de jogo, e a gente acaba só disputando a Liga Municipal mesmo. E, além de as vezes, perdermos por W.O pra times de Campo Grande, Santa Cruz, e outros lugares, porque não temos condição de nos deslocar pra lá, ainda não podemos mandar nossos próprios jogos aqui. Sempre usamos quadras de rua, clubes alugados ou coisa assim. De qualquer modo, é divertido treinar e disputar alguns jogos.
   Depois dessa conversa, ordenaram os calouros em fila, e começaram a dar todo o tipo de “instrução” absurda. Mas, ainda sim, dava para ver que todos ali se divertiam. Tanto calouros quanto veteranos, quanto até mesmo funcionários do colégio. O primeiro dia de aula foi passando e se resumindo à essa “apresentação”. Na hora do intervalo, Gustavo notou que a escola era aberta, e os alunos podiam lanchar na rua à vontade, regime bem diferente das escolas de ensino fundamental que havia visto até então. Se sentou num canto da pracinha, e logo puxou assunto com um outro garoto também sentado ali.
   - E aí, cara? Vai um pouco de guaraná?
   - Opa, com certeza! Bicho, que calor!
   - Hoje tá foda mesmo. Mas e aí, é calouro também né? Eu sou o Gustavo, e tu?
   - Sou calouro sim. Anderson. Joga futebol? Me amarrei na ideia desses campeonatos aí.
   - Cara, sou muito fã de futebol, mas não jogo não. Meu negócio é torcer mesmo, freqüento estádio sempre.
   - Po, maneiro! Tu pode ser o torcedor do time. Já pensou, uma torcida organizada de escola?
   Gustavo não havia pensado. E aquilo soou brilhante para ele, num primeiro momento. Mas, era apenas o primeiro dia. E notando como outros calouros também se interessaram por todo aquele papo de futebol, começou a achar que os dias seguintes seriam o começo de uma história muito divertida, e que sua passagem pelo ensino médio poderia ser muito mais interessante que em qualquer filme que havia visto até então.
   No fim do período matinal, resolveu ir até a quadra ver o treino do time da escola. Não havia arquibancada em condições de ser ocupada, o time era composto por seis alunos apenas, e os treinos eram feitos no curto intervalo entre os turnos.
   Chegando lá, havia mais uns vinte alunos, entre calouros e meia dúzia de veteranos. Depois do time alongar e correr um pouco à volta da quadra, para recuperar a forma depois das férias, sentaram para conversar com os que assistiam ao treino.
   - Bom, gente.. nós seis somos o time de futebol aqui do Horacio. Meu nome é Alessandro, sou o goleiro improvisado. Os outros são Marcelo, Ricardo, Wellington, Felipe e Bruno. O time não é lá muito bom, mas as vezes a gente ganha alguma coisa ou outra. O bastante pra não sermos rebaixados.
   - Escuta.. por que vocês não treinam mais? Num outro horário? - indagou um outro calouro.
   - Cara, com certeza a ideia é ótima, mas acontece que a quadra não tem iluminação. Então não tem como treinarmos aqui de noite. Só dá pra treinar depois da aula da tarde em horário de verão. Mas é uma época em que praticamente não temos aula, e quando temos, não tem campeonato. Inclusive, é por isso que não botamos nossos jogos aqui, já que são todos de noite. É foda.
   Gustavo se lembrou da ideia de seu mais novo colega Anderson, sobre reunir as pessoas para torcerem pelo time. Resolveu manifestar-se a respeito.
   - Alessandro, por acaso a galera aqui do colégio se reune pra ir nos jogos com vocês, torcer e tudo mais?
   - De vez em quando vai um pessoal, mas nada demais. Como os jogos de campeonato são sempre nas terças à noite, fica ruim pra maioria. Só mesmo quem mora perto das quadras aqui da região é que acompanha.
   A conversa foi interrompida pelo sinal da escola. Era hora dos jogadores do turno da tarde encontrarem seus calouros e repetirem o processo que Gustavo já havia visto de manhã.
   - Galera, vai ter mais um treino quinta-feira! Se alguém do primeiro ano tiver interessado em participar do time, é só falar com a gente até lá. Vamos ver se conseguimos reforçar a equipe, pra pelo menos termos mais reservas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Quadrilha de Maria da Graça - Introdução

  Gustavo é um garoto de 14 anos, morador de Cascadura, zona norte do Rio de Janeiro. No ano de 2006, ele se matricula em uma nova escola, para cursar o Ensino Médio. No Colégio Estadual Professor Horacio Macedo, localizado também no subúrbio, no bairro de Maria da Graça, conhece um novo mundo, novas pessoas, e também é introduzido no universo do futebol intercolegial.
  As escolas de toda a cidade disputam campeonatos, que acirram os ânimos de alunos, funcionários e moradores dos bairros. Também descobre que cada escola possui tudo o que um grande time de futebol tem: uniformes, técnico, e como não poderia deixar de ser, torcidas organizadas. É aí que Gustavo, apaixonado por futebol, vê sua vida mudar.
  Ele participa da fundação da primeira torcida do Colégio, destinada a acompanhar o time por toda a cidade, enfrentando o que for. Mas, a vida dele e seus amigos não será fácil. O mundo das torcidas organizadas colegiais envolve disputas violentas nas ruas, amizades, rivalidades e intrigas. Ao longo do ano, a Quadrilha de Maria da Graça vive experências inesquecíveis, umas boas, outras nem tanto, colocando em prova seu espírito guerreiro, e por algumas vezes, até a própria relação de amizade entre eles existente.



Neste blog, os posts serão semanais, e divididos por capítulos. Cada capítulo representa um dia da história.