Rio de Janeiro, 06 de Março de 2006
- Mãe, to indo! Beijão!
- Beijo, filho! Boa aula..
- Aula não, né mãe? Primeiro dia, hoje vai ter no máximo um trote, algo do tipo. Aula mesmo, só semana que vem. Pode apostar.
Gustavo se preparava para o seu primeiro dia de aula no ensino médio. A ansiedade era grande para conhecer novas pessoas, um novo mundo, matérias provavelmente mais difíceis, e talvez tudo o que havia visto em filmes estrangeiros – que, no fundo, ele sabia não ser tão correspondente com sua futura realidade.
Tomou seu café, colocou uma camisa branca e foi. Logo de cara, estranhou o ônibus cheio, já que até o fim do ensino fundamental, só estudara no próprio bairro. Agora, teria que começar uma rotina um pouco mais “cansativa”, pelo menos nesse ponto. Por sorte, havia conseguido uma vaga numa escola não tão longe de sua casa. Morava em Cascadura, e estudaria agora em Maria da Graça.
Chegou muito cedo, ainda faltava cerca de meia hora para os portões do colégio se abrirem. Na porta, só havia “calouros” como ele. Com certeza, quem já estava no 2º e 3º anos, não teria motivo para chegar tão cedo lá. Escolheu um canto qualquer da pracinha em frente ao colégio, se sentou e ficou por ali, esperando e observando.
Pouco a pouco, via mais calouros e alguns veteranos chegando. Esses eram mais fáceis de identificar, pelo uniforme (já que ninguém recebera uniformes antes das aulas começarem) e, principalmente, pelo comportamento solto e sociável. Chegavam as vezes em bandos, gritando, matando saudades e compartilhando histórias das férias.
Os portões do colégio se abriram, e logo os alunos do 3º ano se agruparam num canto próximo a uma quadra em obras, ao fundo do pátio principal. Era provável que estivessem tramando alguma coisa, mas no fundo, os calouros não tinham tanto medo. As histórias sobre trotes no ensino médio eram lendas entre os adolescentes, e aquilo seria quase como um ritual de iniciação obrigatório para eles. Sem o qual, não se sentiriam parte do todo. Alguns dos veteranos saíram do grupo, se dirigiram aos calouros e foram falando:
- Pessoal, sejam bem-vindos ao Horacio Macedo. Aqui, vocês vão viver três anos inesquecíveis. Não tenham medo de nós. Aliás, tenham medo, mas não muito. Ninguém vai ser agredido, nem colocado pra pedir dinheiro no farol. Nosso objetivo é interagir com vocês, fazer amizades, e mostrar como as coisas funcionam por aqui. Mas, vamos fazer isso de uma maneira divertida, principalmente para nós. Afinal, vocês são inferiores e nós damos as ordens por aqui. E antes de qualquer coisa, vamos mostrar um pouco da escola para vocês.
Caminharam mostrando primeiro as mesinhas na parte inferior da escola, depois subiram e passaram pelos corredores de salas de aula, apresentando os professores (que já conheciam como as coisas funcionavam ali, e não tinham esperanças em dar aula alguma naquela semana), funcionários, e a sala da diretoria, vazia. - O diretor é muito legal, mas dificilmente você o verá por aqui – comentou um dos alunos que fazia a apresentação.
Desceram as escadas, mostraram o bosque, um lugar muito simpático cheio de árvores, ambiente muito propício para se fazer muitas coisas, e também para não fazer nada. Depois, seguiram ao fundo do colégio para mostrar a quadra.
- Seguinte, galera. Não sei se vocês já estão sabendo, mas no ensino médio as escolas públicas e particulares disputam campeonatos de futebol entre si. Nosso colégio tem um time, espero que vocês se interessem por nos ver treinar e jogar, e se alguém quiser, que também possa fazer parte do time. Não tem distinção de idade nem série, é só chegar, treinar com a gente e jogar. O único problema é que, como vocês notaram, nós não recebemos muito apoio da diretoria. A quadra está com essas obras inacabadas, sem muita condição de jogo, e a gente acaba só disputando a Liga Municipal mesmo. E, além de as vezes, perdermos por W.O pra times de Campo Grande, Santa Cruz, e outros lugares, porque não temos condição de nos deslocar pra lá, ainda não podemos mandar nossos próprios jogos aqui. Sempre usamos quadras de rua, clubes alugados ou coisa assim. De qualquer modo, é divertido treinar e disputar alguns jogos.
Depois dessa conversa, ordenaram os calouros em fila, e começaram a dar todo o tipo de “instrução” absurda. Mas, ainda sim, dava para ver que todos ali se divertiam. Tanto calouros quanto veteranos, quanto até mesmo funcionários do colégio. O primeiro dia de aula foi passando e se resumindo à essa “apresentação”. Na hora do intervalo, Gustavo notou que a escola era aberta, e os alunos podiam lanchar na rua à vontade, regime bem diferente das escolas de ensino fundamental que havia visto até então. Se sentou num canto da pracinha, e logo puxou assunto com um outro garoto também sentado ali.
- E aí, cara? Vai um pouco de guaraná?
- Opa, com certeza! Bicho, que calor!
- Hoje tá foda mesmo. Mas e aí, é calouro também né? Eu sou o Gustavo, e tu?
- Sou calouro sim. Anderson. Joga futebol? Me amarrei na ideia desses campeonatos aí.
- Cara, sou muito fã de futebol, mas não jogo não. Meu negócio é torcer mesmo, freqüento estádio sempre.
- Po, maneiro! Tu pode ser o torcedor do time. Já pensou, uma torcida organizada de escola?
Gustavo não havia pensado. E aquilo soou brilhante para ele, num primeiro momento. Mas, era apenas o primeiro dia. E notando como outros calouros também se interessaram por todo aquele papo de futebol, começou a achar que os dias seguintes seriam o começo de uma história muito divertida, e que sua passagem pelo ensino médio poderia ser muito mais interessante que em qualquer filme que havia visto até então.
No fim do período matinal, resolveu ir até a quadra ver o treino do time da escola. Não havia arquibancada em condições de ser ocupada, o time era composto por seis alunos apenas, e os treinos eram feitos no curto intervalo entre os turnos.
Chegando lá, havia mais uns vinte alunos, entre calouros e meia dúzia de veteranos. Depois do time alongar e correr um pouco à volta da quadra, para recuperar a forma depois das férias, sentaram para conversar com os que assistiam ao treino.
- Bom, gente.. nós seis somos o time de futebol aqui do Horacio. Meu nome é Alessandro, sou o goleiro improvisado. Os outros são Marcelo, Ricardo, Wellington, Felipe e Bruno. O time não é lá muito bom, mas as vezes a gente ganha alguma coisa ou outra. O bastante pra não sermos rebaixados.
- Escuta.. por que vocês não treinam mais? Num outro horário? - indagou um outro calouro.
- Cara, com certeza a ideia é ótima, mas acontece que a quadra não tem iluminação. Então não tem como treinarmos aqui de noite. Só dá pra treinar depois da aula da tarde em horário de verão. Mas é uma época em que praticamente não temos aula, e quando temos, não tem campeonato. Inclusive, é por isso que não botamos nossos jogos aqui, já que são todos de noite. É foda.
Gustavo se lembrou da ideia de seu mais novo colega Anderson, sobre reunir as pessoas para torcerem pelo time. Resolveu manifestar-se a respeito.
- Alessandro, por acaso a galera aqui do colégio se reune pra ir nos jogos com vocês, torcer e tudo mais?
- De vez em quando vai um pessoal, mas nada demais. Como os jogos de campeonato são sempre nas terças à noite, fica ruim pra maioria. Só mesmo quem mora perto das quadras aqui da região é que acompanha.
A conversa foi interrompida pelo sinal da escola. Era hora dos jogadores do turno da tarde encontrarem seus calouros e repetirem o processo que Gustavo já havia visto de manhã.
- Galera, vai ter mais um treino quinta-feira! Se alguém do primeiro ano tiver interessado em participar do time, é só falar com a gente até lá. Vamos ver se conseguimos reforçar a equipe, pra pelo menos termos mais reservas.
Que foda Lohan, muito bom...
ResponderExcluirCom certeza vou acompanhar e divulgar, espero que um dia (em breve) seja impresso...
Parabéns!!!
Lô,
ResponderExcluirEstá no sangue(rss). Escritor na veia! Estou gostando. A linguagem está enxuta e tem um ritmo interessante. Paira um suspense nas entrelinhas.Aliás, o título e a capa já apresentam uma promessa de bons conflitos, não? Também gosto dos diálogos. Não são duros, fluem com o perfil do personagem que se apresenta.Divulgue também para editoras.Quero mais!
Beijos,
Dinda Moreno
Muito bom! Quase uma biografia ficticia, hehehe.
ResponderExcluirQuero ver os proximos capitulos.
Abraços
Está realmente muito bom Lohan!! :D
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