Rio de Janeiro, 21 de Março de 2006
Após o primeiro treino do time do Horacio Macedo, Gustavo chegou em casa ansioso para criar perfis e grupos virtuais, e postar suas fotos e o vídeo da torcida. Na sexta, as pessoas que viram o conteúdo divulgado por Gustavo, comentavam e o procuravam, querendo participar também da torcida.
No intervalo do turno da manhã, Felipe chamou Gustavo, e o entregou um papel com a tabela da Liga. Gustavo correu para anunciar a todos do time a ordem dos confrontos, e o primeiro seria em casa. Era uma boa oportunidade para a equipe do Horacio Macedo e sua torcida começarem bem o campeonato. Os dois foram até o cartaz que João havia preenchido, e escreveram em uma outra cartolina colocada ao lado - nas mesinhas havia cobertura, e um quadro de avisos, então as informações sobre o clube e a torcida eram sempre postadas ali.
Pegaram uma caneta hidrocor, e escreveram no quadro de jogos do Grupo 5:
21/03/2006 - 19:00 - Horacio Macedo x Visconde de Cairu - Maria da Graça 21/03/2006 - 20:00 - Geremário Dantas x João Lyra - Praça Seca
28/03/2006 - 19:00 - Visconde de Cairu x Pedro II Realengo - Méier
28/03/2006 - 20:00 - João Lyra x Horacio Macedo - Quintino
04/04/2006 - 19:00 - Pedro II Realengo x Horacio Macedo - Realengo
04/04/2006 - 20:00 - Visconde de Cairu x Geremário Dantas - Méier
11/04/2006 - 19:00 - Pedro II Realengo x João Lyra - Realengo
11/04/2006 - 20:00 - Horacio Macedo x Geremário Dantas - Maria da Graça
18/04/2006 - 19:00 - Geremário Dantas x Pedro II Realengo - Praça Seca
18/04/2006 - 20:00 - João Lyra x Visconde de Cairu - Quintino
A informação foi se espalhando, e todos começaram a aguardar ansiosos por aquela terça-feira. Ao longo do fim de semana, Gustavo trabalhou em músicas, e prendeu alguns ilhoses em suas bandeiras. Ronaldo ligou para Gustavo no domingo à noite, e prometeu levar um pequeno tan-tan para animar a festa na arquibancada. Marcelo havia conseguido uma velha caixa da bateria de seu pai, que era músico. Jéssica, conforme prometido, passou todo o fim de semana picando papel para a festa de terça-feira. Os garotos, que já formavam o centro da torcida QDA, sabiam que aquele jogo seria bem importante para o futuro do futebol no Horacio Macedo. Os outros membros, Augusto, Washington e Bruno, só apresentariam suas prometidas surpresas no dia do jogo, segundo eles.
Na segunda-feira, houve mais um treino, onde foi decidido que Jorge, um dos alunos do terceiro ano e futuro estudante de educação física, seria o treinador da equipe. Logo após o treinamento, uma longa conversa entre os jogadores e a torcida - que passara todo o treino ensaiando as músicas para o dia seguinte. Segundo Alessandro, em um acordo com a diretoria, ficou decidido que seria disponibilizado, mas apenas para o time, a kombi da escola, que era usada para serviços externos. A torcida, infelizmente, deveria se locomover por conta própria. E também lhes fora informado que, segundo regras do torneio, o time deveria chegar ao local da partida com antecedência, e sem membros de torcida junto deles. Os jovens da QDA não se importaram com isso, sua ideia era acompanhar o time, onde quer que ele fosse.
Enfim, havia chegado o dia da estreia. O clima na escola era o melhor possível. Conforme pedidos da QDA, a maioria dos alunos vestia uma camisa azul por baixo do uniforme. Bandeirinhas azuis e balões de gás enfeitavam a entrada da quadra, e toda a escola aguardava ansiosamente por aquele jogo. Até mesmo alguns professores prometeram ficar até mais tarde para assistir à partida. Os jogos da Liga Municipal eram sempre às terças-feiras, alguns, das 19:00 às 20:00, e outros, das 20:00 as 21:00, divididos em dois tempos de vinte minutos cada.
Durante o intervalo entre os turnos, toda a QDA se reuniu na quadra. Agora, a torcida contava com mais duas meninas e três rapazes, que resolveram se juntar à "Quadrilha" na segunda-feira. Washington, que carregava uma sacola enorme, resolveu revelar a surpresa: eram duas faixas de pano, enormes, uma azul e outra branca. Seriam amarradas na grade, e ficariam sobre a arquibancada atrás do gol. Ele, Augusto e Bruno se juntaram para comprar o pano, na loja onde a mãe de Washington trabalhava. Inclusive, agora já sabiam onde costurar bandeiras, e até mesmo uniformes. A mãe de Washington havia se oferecido para ajudar o time e a torcida, no que fosse possível.
Penduraram as bandeiras, amarraram as faixas na grade - Washington e Augusto ficariam na parte de cima da arquibancada, segurando a ponta superior das faixas - e colocaram os instrumentos sobre os degraus. Na arquibancada lateral, a obra ainda não havia terminado por completo, e o acesso deveria ser feito por um degrau de madeira improvisado, na linha lateral da quadra. O que significava que a torcida deveria estar toda na quadra antes que o jogo começasse. Deixaram as coisas por ali, e desceram.
Enquanto os alunos da tarde estavam em sala, Gustavo ficou arrumando os papeis picados em saquinhos, para distribuir a quem estivesse lá. Já sabia que a festa seria devidamente registrada, pois um dos alunos que vieram falar com ele, se comprometeu a fotografar e filmar todos os jogos na quadra do Horacio Macedo, incluindo a festa da torcida. De qualquer modo, sua câmera ia clicando todos os momentos do dia, incluindo a preparação da quadra para a grande festa.
As horas demoraram a passar, mas depois de uma espera que parecia infinita, as aulas do turno da tarde estavam se aproximando do fim. Os alunos desceriam correndo para se ajeitar na quadra, já que ainda não havia muitos lugares disponíveis. Pouco antes que todos começassem a descer, Gustavo viu os alunos do colégio Visconde de Cairu entrando pela porta dos fundos da escola, e se dirigindo ao vestiário de visitantes. Cumprimentaram Gustavo, que vestia camisa azul e calça jeans, com um chapeu de pescador também azul - havia se caracterizado o quanto pôde. Um pouco depois, os jogadores do Horacio Macedo desceram direto para o vestiário ao lado da quadra.
Jéssica desceu um pouco mais cedo, e se juntou a Gustavo na entrada da quadra. Enquanto conversavam e passavam novamente as letras das músicas, viram cerca de dez garotos, todos mal encarados e parecendo meio perdidos ali, entrarem pelo corredor do lado oposto da escola. Carregavam uma pequena faixa, escrito "Jovem do Méier". Certamente, eram a torcida do Visconde de Cairu, adversário daquela noite. Ao avistarem a quadra, se dirigiram para onde estavam Gustavo e Jéssica.
- Escuta, rapá.. onde a gente fica aqui nessa quadra? - perguntou, em tom agressivo.
- Entra aí, pelo portão da esquerda. Fiquem ali na parte superior - apontou Gustavo.
Sem dar resposta, os rapazes subiram e amarraram sua faixa. E por lá permaneceram. Jéssica olhou assustada para Gustavo, que não soube o que comentar. Preferiram entrar, e ficar atrás do gol, na arquibancada, esperando os demais alunos.
A aula do turno da tarde chegou ao fim, e a quadra ia enchendo lentamente. Todos que entravam, olhavam para os rapazes da torcida Jovem do Méier, sentados na escada, como se tentassem impedir o acesso de alunos do Horacio Macedo à sua área. Todos tinham cara de brigões, e não davam sorrisos para ninguém que os olhasse. Apenas conversavam e riam entre si, visivelmente debochando dos alunos da escola adversária.
Já eram 18:30, os árbitros junto com o membro da federação que faria a filmagem já haviam chegado, e a quadra estava bastante cheia. Quase todo o espaço disponível foi ocupado, e os membros da QDA começaram a distribuir o papel picado para os demais alunos. Esperavam que todos tivessem ouvido as músicas, gravadas e postadas nos dias anteriores, nas comunidades virtuais da torcida.
O ânimo entre todos era muito grande, e de uma maneira geral, seria uma experiência inédita para cada um ali. Mesmo para Gustavo, ou quem quer que fosse, acostumado com estádios e grandes jogos de futebol. Ninguém havia presenciado um jogo tão cheio, principalmente ali naquela escola. Faltavam 15 minutos para o início da partida, e Gustavo acenou para a entrada da quadra, onde Patrick, o futuro fotógrafo da torcida, se localizava. Ele começou a clicar tudo, no momento em que o time do Visconde de Cairu entrou em quadra, vestindo seu uniforme principal, com camisas, shorts e meias verdes. Foram saudar a torcida visitante, que gritava o nome do time e da própria torcida. A QDA inteira resolveu começar a cantar, pois a qualquer momento entraria também em quadra o time da casa.
Numa paródia de Mulher de Fases, dos Raimundos, entoavam, animados:
"Horacio, olhe pra sua gente Que te apoia o tempo inteiro, onde quer que vá
Eu canto, eu largo a minha vida
Faço tudo o que eu posso pra te ver jogar
Não esqueça que essa galera atrás do gol te ama de verdade
Vamos, Horacio Macedo, tu és minha paixão
Vou cantar o tempo inteiro, pra te ver campeão
Vamos, Horacio Macedo, tu és minha paixão
Vou cantar o tempo inteiro, vamos HM!"
Enquanto a quadra se agitava, a equipe do Horacio Macedo entrou em campo, toda de mãos dadas. A festa foi espetacular. Até os jogadores e torcedores do Visconde de Cairu pararam para ver. Papéis picados aos montes, voavam pela quadra, todos pulando, aplaudindo. E a música tomou a quadra, num coro de causar arrepio todos cantavam o refrão da música. Gustavo não sabia se cantava ou sorria. À frente da torcida que ele havia fundado, não cabia em si de emoção. Era impressionante, para todo mundo ali, a proporção que aquilo havia tomado, de uma maneira tão rápida. Os professores da escola, na entrada da quadra, aplaudiam a festa e os jogadores, que tiveram algum trabalho para retirar os papeis picados do chão. Ao fim da música, uma salva de palmas veio da torcida, que na verdade, aplaudia a ela mesma. Gustavo, de longe o mais feliz e empolgado ali, começava a cantar outras músicas. Com o degrau de madeira já retirado da linha lateral, estava tudo pronto para começar a partida. As faixas verticais tremulavam nas mãos de Washington e Augusto, que pulavam incessantemente, assim como os outros membros da Quadrilha.
Começou a partida, e agora somente a torcida, em volta da bateria e entre as faixas, cantava. O jogo era nervoso, acirrado, e até um pouco violento. O time do Cairu era, assim como aparentava ser sua torcida, bastante agressivo. Logo no começo do confronto, um jogador foi punido com cartão amarelo. Diversas faltas foram marcadas em seguida. Os jogadores do Visconde de Cairu pareciam mais experientes, enquanto os do Horacio Macedo jogavam com calma, e uma certa dose de ingenuidade.
A partida seguia disputada e, no final da primeira etapa, o goleiro do Cairu rolou a bola para um jogador ao seu lado, que chutou forte, fazendo a bola desviar em Ricardo e ir para o gol. O time comemorou, assim como sua torcida na área visitante. Após dois segundos de silêncio, a QDA ressurgiu cantando extremamente alto. A batucada ficou mais forte, no momento em que o jogo foi para o intervalo. Durante os cinco minutos entre os tempos, os garotos da torcida respiraram, se prepararam para continuar a batalha, e voltaram a cantar alto e forte. Poucos entendiam o que se passava ali, poucos entendiam a ideologia daqueles jovens que, mesmo tristes, cantavam como se seu time estivesse ganhando a partida.
Começou o segundo tempo, no mesmo ritmo do primeiro, e seguia a festa atrás do gol. Com cerca de cinco minutos, Alessandro lançou a bola para Anderson, que chutou de primeira no ângulo. A quadra parecia que iria desabar. Era o primeiro gol desta nova era do Horacio Macedo, feito por um calouro, assim como toda a criação daquela festa, e a comemoração não poderia ter sido maior. Voaram balões de gás, papeis picados, e até mochilas para o alto. A gritaria foi ensurdecedora. Os professores se abraçavam, comemoravam, aplaudiam, até os zeladores da escola ficaram lá para ver o jogo, e pulavam junto. A torcida gritava, descontrolada, um belo "Ôôôôô" em coro, de melodia contagiante. Os membros da QDA giravam suas camisas no alto. No meio da festa, Wellington driblou o goleiro e tocou para o fundo das redes. Em apenas dois minutos, o time do Horacio Macedo virou o jogo. E aí sim, a festa tomou proporções absurdas. Os torcedores do Visconde de Cairu, que durante o primeiro tempo esboçaram alguns cânticos, após a virada ficaram quietos, observando - e um deles, que registrava a passagem de seu colégio por Maria da Graça, até mesmo fotografando o show que a Quadrilha de Maria da Graça dava na arquibancada.
Numa melodia maravilhosa, a QDA entoava:
"Vamos, Horacio Macedo Que esta noite, temos que ganhar
Vamos, Horacio Macedo
Que eu estou contigo, sempre a te apoiar
Dá-lhe, dá-lhe dá-lheô
Dá-lhe dá-lheô, e dá-lhe dá-lheôô"
O jogo ia passando, e a equipe da casa parecia administrar o resultado. O time do Méier não esboçava reação e, por volta dos 15 minutos, Wellington chutou para mais um gol. Era a cereja no bolo daquela noite. 3 x 1 para o time do Horacio Macedo, uma estreia impecável, e a festa da QDA podia ser ouvida até na pracinha, do lado de fora da escola.
Ao apito final do juiz, uma salva de palmas e gritos tomou conta da quadra. Mais papel picado para celebrar a vitória. O time fez questão de ir até a arquibancada reverenciar a torcida. Gustavo desceu até a grade atrás do gol, e apertou com força a mão de Alessandro, que não se continha de felicidade.
- Obrigado, cara! Muito obrigado! Você fez isso tudo aqui! Você e a Quadrilha! Obrigado por isso, de verdade.
- Que nada. Nós que agradecemos. Hoje foi lindo demais, tomara que seja assim sempre.
Ninguém sabia onde aquilo iria parar, mas sem dúvida a noite foi inesquecível para cada aluno ali presente. Logo no fim do jogo, os rapazes da Jovem do Méier recolheram sua faixa, e saíram da quadra antes dos torcedores locais. Os alunos se retiraram, apressados para voltar às suas casas, mas Gustavo, a QDA e os jogadores, não tinham pressa. Ajudaram a fechar a quadra, e foram caminhando lentamente até a praça. Os jogadores, visivelmente exaustos, entraram no primeiro ônibus, mas os meninos da QDA, junto com Carla e Jéssica, ficaram por ali até cerca de 21:00. A maioria morava na região de Ramos, Bonsucesso, Higienópolis e adjacências, com exceção de Carla, que ainda sim os acompanharia. Após todos saírem, Washington, que iria para Jacarepaguá, decidiu ir embora junto com Gustavo. Mas, quando avistaram o ônibus chegando, notaram a presença dos membros da JDM do outro lado da rua. Haviam esperado esse tempo todo, talvez para um eventual ataque a eles. Quando correram na direção de Gustavo e Washington, para sorte dos dois, o ônibus parou no ponto. Entraram rapidamente, assustados, e os rapazes recuaram. Antes do coletivo partir, um dos garotos arremessou uma garrafa plástica vazia na janela onde sentaram, e gritou:
- Fiquem de olho aberto! Torcida não é brincadeira, nem festinha! Tamo de olho em vocês! Aqui é território nosso!
Sabiam que aquilo não era, de fato, um aviso sem importância. Sem perceber, estavam entrando num mundo um pouco mais violento do que pensavam. Para permanecer na ideologia de apoio incondicional ao time, deveriam superar alguns desafios, e o caminho não seria simples de percorrer.
Gustavo, pensando que teria uma noite tranquila após aquela linda comemoração, não conseguiu dormir tão bem quanto o planejado.
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