Rio de Janeiro, 16 de Março de 2006
Chegou a quinta-feira, dia do sorteio de grupos da Liga Municipal Intercolegial. E dessa vez a quadra já poderia ser parcialmente utilizada para que o time treinasse à noite. Gustavo chegou para a aula no horário normal, segurando uma sacola muito bem fechada, protegendo-a como à própria vida. Quem já estava ciente do assunto, imaginou que poderia ser algo para se revelar mais tarde, na hora do treino.
Durante as aulas, os jogadores que estudavam à tarde passaram pelas salas recolhendo dinheiro para os uniformes. Naquela tarde, enquanto os jogadores da tarde ficassem acompanhando o sorteio pela internet, Gustavo e os outros iriam comprar e estampar os números nos uniformes do time.
Ao fim do turno da manhã, todos se reuniram nas mesinhas da escola. Separaram o dinheiro, que já sabiam ser o suficiente para os uniformes, e se dividiram entre os que ficariam na escola durante o sorteio, e os que iriam às ruas preparar os uniformes. Resolveram sair logo dali, para que tudo fosse resolvido o mais rápido possível. O sorteio seria no horário do intervalo do turno da tarde, e todo o colégio estava bastante ansioso para conhecer os adversários no torneio.
Gustavo, ainda carregando sua sacola, e mais alguns jogadores pegaram o metrô para o centro da cidade, onde comprariam as camisas no modelo já previamente escolhido. Não havia recursos para aplicar detalhes ao uniforme naquele momento, então simplesmente queriam camisas azuis, shorts brancos e meiões azuis. Wellington sabia onde conseguir tudo, e foram direto à loja. Lá chegando, encontraram a quantidade exata que precisavam. Somente os coletes estavam em falta. Mas era o menos importante até então. Fizeram as contas, pediram um bom desconto, e por lá mesmo deixaram os uniformes com a lista de nomes e números, para que fossem feitas as estampas.
Perceberam, então, que havia tempo para voltarem ao colégio e tentar acompanhar o sorteio. Correram bastante até o metrô, e ao retornar a escola, não viram ninguém na praça. O que significava que o sorteio estava sendo realizado. Voaram para o interior da escola, e lá chegando, viram que Alessandro havia organizado tudo: ele e os jogadores estavam na entrada da quadra, de frente para todos, com um laptop sobre a mesa. Do lado, um cartaz onde João, um dos calouros do time, ia anotando os nomes dos times nos grupos, à medida que eram sorteados. O sorteio havia começado a pouco tempo, até então só havia dez times sorteados, e o Horacio Macedo ainda não fora anunciado. Conforme cada escola era sorteada, a organização do torneio anunciava a localização da mesma. E Marcos, outro calouro, anotava tudo.
- Venham aqui, pessoal. - Alessandro chamou os garotos que vinham do centro - Ainda não fomos sorteados.
A Liga Municipal era composta por 16 grupos, com cinco times em cada. Assim, cada equipe de cada grupo jogaria duas partidas em casa, e duas fora. Dentre estes 80 times, que compunham a primeira divisão, os piores de cada grupo eram rebaixados. Os dois líderes de cada grupo se classificavam para a segunda fase, em confrontos diretos eliminatórios, ida e volta. E assim o campeonato seguiria até as finais, em jogo único, realizado em local neutro a ser escolhido de acordo com a localização das escolas.
- Agora já temos um time em cada grupo. Tomara que o sorteio não seja cruel conosco, e possamos jogar aqui perto. Vamos lá, mais um time para cada grupo a partir de agora.
O sorteio ia correndo, e enquanto isso, Gustavo se retirou de perto da mesa, e foi para dentro da quadra. Mais tarde, haveria o treino, e ele queria preparar a parte da quadra já disponível, para surpreender os jogadores quando lá entrassem. Começou a desembrulhar seu pacote, e de lá tirou cinco bandeiras, quatro azuis e uma branca. Na maior de todas, havia escrito "QDA", e a descrição "A Quadrilha de Maria da Graça" logo abaixo. Seria a faixa principal, por enquanto. Na branca, pintara com tinta azul "Colégio Estadual Professor Horacio Macedo - Maria da Graça, Rio de Janeiro/RJ - Brasil". Nas outras três, as frases "Horacio Macedo, te amo", "Maria da Graça" e "Apoio Incondicional".
Gustavo pendurou tudo cuidadosamente, pegou sua câmera, fotografou a quadra em obras, e as faixas ali penduradas, atrás do gol. Aquele seria o local escolhido para que a torcida ficasse durante os jogos. A quadra possuia um lance de alguns degraus atrás do gol, um longo lance de degraus tomando toda a lateral direita de quem entrava na quadra. Ao lado da entrada, duas escadas, uma para cada lado. A da direita dava acesso à parte superior das arquibancadas, enquanto a esquerda apenas servia para acessar uma pequena área, onde ficariam as torcidas visitantes. Os times entravam pelos mesmos portões que suas respectivas torcidas, e se dirigiam ao lado esquerdo da quadra, onde não havia arquibancadas, somente os bancos de reservas e área técnica.
- Gustavo! - Alessandro o chamava da parte de fora da quadra - Tá fazendo o que aí dentro, cara? Vem, terminou mais uma parte do sorteio! Dois times em cada grupo, por enquanto nada do Macedão.
Do lado de fora, o cartaz ia sendo preenchido, e com Marcos, estava o papel com a localização de cada escola. Gustavo via ali diversos bairros, de Realengo à Copacabana. Notou ali o nome de um colégio particular, bem próximo à sua casa. Era o Colégio João Lyra Filho, e Gustavo tinha vários amigos lá. Lembrou-se logo de Marlon, seu amigo de infância, que estudava lá a um bom tempo. Havia ouvido algo sobre uma torcida chamada Mancha Amarela, fundada por colegas de Marlon, mas não sabia a quantas andava a ideia. Certamente, no colégio João Lyra também estavam acompanhando o sorteio.
As equipes iam sendo distribuídas pelos grupos, uma a uma. Bangu, Centro, Madureira, Méier, Cascadura. Até que Gustavo, um pouco disperso com tantas ideias sobre o que fazer para a torcida, ouviu o nome que tanto esperava.
- Aí, pessoal! Somos nós! Colégio Estadual Professor Horacio Macedo, de Maria da Graça. Estamos no Grupo 5, por enquanto com o Colégio João Lyra Filho, de Quintino, e o Visconde de Cairu, do Méier. Tudo pertinho! Maravilha!
Gustavo ficou espantado com tamanha coincidência. O colégio de seus amigos, no mesmo grupo do colégio em que agora estudava. Certamente ligaria para Marlon de noite.
- Alessandro, o Colégio João Lyra é muito próximo à minha casa. Alguns amigos meus estudam lá. Inclusive, meu amigo de infância, Marlon, é membro de uma torcida organizada por lá. A Mancha Amarela. Vou falar com ele ainda hoje, contar essa novidade.
- Boa, cara! Já sabemos que seremos bem recebidos em pelo menos uma quadra! - riu.
Mais uma rodada de equipes foi finalizada. A cada time sorteado, ficava a expectativa para que, no Grupo 5, só houvessem equipes de bairros próximos à Maria da Graça. Mas não seria tão simples.
- Colégio Geremário Dantas, Praça Seca, Jacarepaguá. Grupo 5. - Alessandro anunciou, desapontado. Ainda sim, sabia que poderia haver coisa pior.
O grupo 5 ainda seria fechado com uma escola de Realengo. O adversário mais distante do Horacio Macedo. Todos esperavam que o jogo contra eles fosse em casa. Mas só no dia seguinte teriam esta resposta. Ao fim do sorteio, foi anunciado ainda, pelo site da Federação Intercolegial, que as partidas seriam transmitidas pela internet, direto do site onde foi realizado o sorteio, e para isso, em cada jogo haveria um funcionário na quadra filmando tudo.
Conhecidos os confrontos do colégio, os alunos aos poucos voltavam para suas salas. Alessandro guardou a mesa e levou o laptop de volta para a diretoria. Os jogadores da tarde subiram, enquanto o resto do time foi até o refeitório, já que treinariam à noite.
- Bom, então é isso. Quatro jogos, dois próximos e dois distantes. Podemos ser bastante sortudos, e fazermos fora de casa só os jogos no Méier e Quintino. - comentou Alessandro.
- Ah, mas a diretoria falou que iria nos ajudar. Se for necessário, a gente pede para eles nos levarem até lá. Quer dizer, espero que possamos contar com isso. - sugeriu Marcos.
- É. Mas acho que eles darão suporte somente para os jogadores. Não temos como saber se haverá transporte para a torcida também. De qualquer modo, Gustavo, por enquanto só tem você. Então, você pode ir com a gente.
- Verdade - respondeu Gustavo -, ainda posso ir com vocês. Mas não quero que a torcida seja só eu. Senão, não faz sentido. Preciso convocar mais gente.
Coincidência ou não, logo após Gustavo falar isso, entraram cinco garotos e uma menina no refeitório. Foram até a mesa onde estavam os rapazes, e se apresentaram. Eram Jéssica, Bruno, Washington, Marcelo, Augusto e Ronaldo.
- Você é o Gustavo, que fundou a torcida QDA, né? Então, nós queremos participar também. O que precisamos fazer? - perguntou Bruno.
- Bom, vocês já participam - riu.
- Como assim, cara?
- É. Vejam, não temos carteirinha, nem sede, nem presidente, nem nada do tipo. Vai ser só um movimento de apoio ao time, por enquanto, sem nada institucionalizado. Então, eu, como único membro da torcida até agora, posso afirmar que vocês, e qualquer outro que chegar lá pra torcer, já está dentro. Minha ideia é uma só: apoiar o time o tempo inteiro, alucinadamente.
- Perfeito! Então, estamos dentro. Mas, e já temos músicas para cantar? - indagou Jéssica.
- Olha só! Sabia que estava faltando alguma coisa! - disse Gustavo, para risada geral. - Bem lembrado, não tem música nenhuma ainda! Até porque, eu estava fazendo uns panos em casa e não parei para pensar a respeito. Mas, vamos nos reunir pela internet, e acertamos isso. Criarei grupos em vários sites, vamos divulgar a ideia, e ver se mais alguma outra escola participa desse tipo de movimento também. Lá, eu posto as fotos dos panos, e a gente pensa em músicas. Mas não se preocupem, eu me encarregarei de criar algumas, provisórias, para esse primeiro jogo, que ainda não sabemos contra quem será, nem onde será. Combinado?
- Combinadíssimo! Então, somos da QDA agora! Vamos tentar aparecer na quadra depois da aula, para vermos o treino. A gente se fala por aí, Gustavo! Foi um prazer, amigo! - se despediram os seis, saindo do refeitório. Alessandro, pensativo, perguntou:
- Gustavão, seguinte: que panos são esses? Já estão prontos? Aliás, cadê a sacola que você estava segurando?
- Deixa isso pra lá, Alê. Mais tarde a gente conversa sobre. - Gustavo desviou o assunto.
No final da aula, os seis jovens que foram até Gustavo no refeitório, desceram de suas salas em direção à quadra. Gustavo e o time esperavam, na porta, pelos outros jogadores.
- Grande Gustavo! Não estou sabendo, mas diga: tem alguma parte da arquibancada em que já podemos ficar? - perguntou Washington.
- Bom, atrás do gol já está pronto. Só falta a arquibancada lateral direita, e a parte dos visitantes. Mas, para acessarmos a parte de trás do gol, ainda temos que andar pelo meio da quadra.
- Ah sim. Então, acho que o time todo vem aí, vamos entrar?
- Vamos! Jogadores, atenção: o trabalho não está perfeito, foi tudo preparado muito às pressas, virei a noite fazendo isso, mas espero de coração que gostem. - disse Gustavo, enquanto entravam na quadra. Apontou para as bandeiras penduradas atrás do gol, no lado oposto. Os jogadores todos correram para vê-las de perto.
- Olha só que irado, cara! Me amarrei mesmo! Parabéns, Gustavo! Tá lindo! Agora sim a coisa vai pra frente! Me sinto ainda mais motivado para ganharmos nesse campeonato. - exclamou Marcelo, jogador do segundo ano.
Gustavo e os outros subiram para a arquibancada atrás do gol, para assistir ao treino do time. Enquanto tocavam bola e se aqueciam, tiveram a ideia de cantar o nome de cada jogador ali, para incentivá-los durante o treino. Era a primeira vez que se manifestava uma torcida naquela quadra.
- Alessandro! Marcelo! Ricardo! Wellington! Felipe! Bruno! Anderson! Marcos! Marcos Silva! João! - eram os gritos, seguidos por aplausos. De fora da quadra, ouvia-se a empolgação dos sete torcedores. Algumas pessoas chegavam a entrar na quadra para saber o que acontecia.
Depois disso, começaram a gritar o nome da escola. "Horacio, Horacio!!", e entoaram então o que seria a primeira música da torcida. Em cima do clássico When The Saints Go Marching In - que muitas torcidas de grandes clubes entoavam -, começaram a gritar o nome da escola:
"Horacio-ô!
Horacio-ô!
Horacio-ô ô ô ô ô!
Horacio-ô ô ô ô ô!
Horacio-ô ô ô ô ôô!"
Os jogadores até pararam o treino para observar. Os últimos alunos que saiam da escola, entaram na quadra para ver. Não fazia muito sentido, aquelas sete pessoas pulando atrás do gol durante um treino, à noite, mas era bonito de se ver. Gustavo colocou sua câmera na parte alta da arquibancada, e ficou ali filmando aquela pequena festa.
Ao final do treino, os membros do time foram até a arquibancada aplaudir os garotos da QDA. Nunca tinham visto nada parecido com aquilo. Gustavo soltou as bandeiras, embrulhou todas cuidadosamente, e assim terminava um dia bem movimentado, tanto para jogadores quanto para aquela nova torcida que ali nascia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário