sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Capítulo 04

Rio de Janeiro, 15 de Março de 2006


   No dia seguinte à festa do trote, as obras na quadra começaram. Logo na quarta-feira, foram colocadas todas as lâmpadas, pela manhã. Gustavo mal conseguia prestar atenção nas aulas, onde os professores já começavam a passar trabalhos para casa. Ele só conseguia pensar em como poderia ajudar o time. Passou horas em casa desenhando, projetando bandeiras, faixas, e pensando num nome pra uma torcida. Algo marcante, que chamasse atenção, um nome se possível agressivo, apesar do intuito inicial de apenas apoiar o time. Mal sabia, entretanto, se teria apoio de alguém nessa empreitada.
   Naquele dia, depois da aula, o time se reuniu apenas para conversar, já que não podiam treinar na quadra em obras. O único que não estava presente era Wellignton, que estava fazendo a inscrição da equipe na Liga Municipal, próximo à sua casa. Nas mesinhas da escola, Felipe sugeria cores e uniformes.
   - Acho que se a gente usar azul, fica foda. Depois fazemos um segundo uniforme branco. E arrumamos uns coletes cinzas, pra emergência, coisa simples. Agora precisamos é decidir como vai entrar a grana pros uniformes. Acho que a galera não vai ligar de contribuir. Podemos pedir pelas salas. Mas temos que agilizar isso logo, amanhã já é dia do sorteio de grupos do torneio.
   Resolveram acatar a ideia e ficar com o uniforme azul. Era simples, com uma listra branca nos ombros. Shorts brancos, meias azuis. O segundo uniforme seria o oposto. Gustavo e todos do time gostaram da ideia. Agora restava conseguir o principal: o dinheiro para os uniformes. Decidiram fazer uma campanha de arrecadação pela escola. Não seria difícil, se pelo menos metade dos alunos contribuisse.
   Mas, antes de começar a fazer qualquer coisa, Gustavo tinha algo a falar. Abriu sua mochila, pegou uma pasta, colocou todo o conteúdo sobre a mesa, na frente dos jogadores da equipe. Eram papéis com desenhos de faixas, bandeiras, arquibancadas, frases, nomes, rabiscos. Então, começou a explicar:
   - Pessoal, isso tudo aqui levou algum tempo para ser projetado. Pensei num nome, numa ideologia, e cheguei a essa ideia. Eu vos apresento a Quadrilha de Maria da Graça. A QDA. Está fundada neste exato momento a torcida organizada oficial do Colégio Estadual Professor Horacio Macedo.
   Alessandro arregalou os olhos, surpreso e ao mesmo tempo emocionado. Não sabia qual era exatamente a ideia de Gustavo, mas o indagou:
   - Cara, você teve essa ideia sozinho? Ou já tem mais gente pra compor isso?
   - Bom, como eu fiz tudo sozinho, por enquanto sou só eu. Mas eu vou ver se tem mais gente interessada. Juntar uma galera, pelo menos um pessoal pra fechar sempre, sabe? Ir em todos os jogos, cantar, batucar, fazer a farra toda. Tenho certeza, deve ter mais umas dez pessoas aqui pelo colégio com essa cabeça também.
   - Entendi. Então pode contar com a gente! Agora é o Horacio Macedo com a QDA, sempre! Todo mundo de acordo?
   Não havia como discordarem. A ideia era ótima. Além de definir um projeto de uniforme, agora, como um incentivo ainda maior para o time, haveria uma torcida disposta a tudo para acompanhá-los e incentivá-los. A coisa começava a tomar um ar quase profissional para aqueles jovens.
   Ao fim da reunião, Gustavo preferiu ir para casa. Havia muita coisa a fazer, principalmente agora que já sabia qual seria a cor do time. Pegou o ônibus e não desceu em casa, foi direto a Madureira, comprar tecidos e tinta para começar a trabalhar logo. Enquanto isso, ainda na escola, começou a arrecadação de dinheiro para os uniformes. A todo mundo, era apresentado o projeto, as cores, e os garotos faziam questão de mencionar a ideia da torcida organizada que Gustavo havia fundado. A reação inicial de todos era, claramente, de espanto. Até pouco tempo atrás, o futebol no Horacio Macedo era uma diversão sem investimentos. Agora, já pensavam em torcida organizada, faixas, uniformes...
   Ainda assim, os garotos do time conseguiram arrecadar um bom dinheiro. Alguns doavam poucas moedas, outros até dez reais, professores e funcionários também foram solicitados e contribuiram com o que podiam. Com o dinheiro daquele dia, já era possível comprar e estampar o primeiro uniforme todo, mais os coletes. O resultado da arrecadação superou as expectativas. Mas também começou a gerar uma certa pressão na cabeça dos jovens jogadores. Agora, deveriam representar a escola mais do que qualquer um já havia feito. Não sabiam até que ponto aguentariam a responsabilidade, mas certamente, até onde chegaram, já estava no mínimo bastante divertido.

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