Rio de Janeiro, 13 de Março de 2006
Durante o fim de semana, enquanto o time do colégio divulgava sua "agenda" na internet, Gustavo elaborava um pequeno documento, a ser entregue para a diretoria, onde inclusive, falava sobre os próprios alunos participarem com o que fosse possível, na reforma da quadra e no apoio ao time. Anexou o abaixo assinado, e guardou todo o seu trabalho na mochila. Na segunda-feira não haveria aula para o 1º e o 3º ano. Mas todos estariam na escola para a festa do trote. Haveria muita tinta, comida, bebida, mas antes o diretor do colégio, o senhor Jaime Martins, falaria com os alunos, aproveitando a ocasião já que não pudera estar lá na semana anterior.
Gustavo não pregou os olhos na madrugada que antecedeu o "grande dia". Tinha a forte convicção de que tudo daria certo, e apesar de pouco tempo na escola, começava inclusive a imaginar seu nome circulando pelos corredores. Ainda que não fosse essa sua pretensão, sabia que sua ideia seria reconhecida. Sonolento, mas muito animado, se vestiu e chegou no horário normal ao Horacio Macedo. A festa só seria por volta das 10 horas, e envolveria os dois turnos. Mas, ansioso, Gustavo não aguentou esperar.
Alessandro desceu do ônibus na porta da escola, junto com mais alguns veteranos, todos vindos do Méier. Já eram cerca de 8 da manhã, e Gustavo fazia um lanche, já que havia saído correndo, muito cedo, de casa.
- E aí, calouro! Beleza? O negócio é o seguinte.. hoje a gente vai falar com a diretoria, mas depois na hora do trote, você não é mais meu amigo, ok? - Alessandro decretou, rindo da cara de susto de Gustavo.
- Certo, certo! Essa é a regra! - sorriu, timidamente.
Aos poucos o tempo ia passando e os alunos chegavam, todos sem uniforme, preparados para se sujar. Somente os alunos do segundo ano estavam em sala. Gustavo notou um carro estacionando dentro da escola, e de lá saiu um homem alto, bigodudo e que sorria para todos. Lembrou das fotos que havia visto e reconheceu ser o diretor, senhor Jaime Martins, conhecido por ser ausente porém bem simpático e receptivo.
Quando o relógio já marcava 9:30, o diretor subiu no pequeno palco do auditório da escola, e reuniu todos os calouros. Deu as boas-vindas aos alunos, pediu desculpas por sua ausência na semana anterior, falou sobre algumas normas do colégio e sobre suas expectativas para mais um ano letivo. Ao fim de seu discurso, na saída do auditório, Gustavo o abordou.
- Senhor diretor. Muito prazer, meu nome é Gustavo, sou aluno do primeiro ano.
- Não precisa me chamar assim. Não me incomodo que digam meu nome - debochou.
- Bom, então tudo bem. Jaime, cheguei recentemente aqui e notei que a quadra tem obras inacabadas, falta iluminação e estrutura para o time de futebol da escola. Conversei com os jogadores do time, que agora conta com alguns calouros também, e notei que os outros alunos até gostariam de acompanhar os jogos do time, mas os desanima o fato de a diretoria não dar a devida atenção a eles. Me perdoe desde já, por parecer que eu estou questionando sua administração. Me desculpe mesmo..
- De maneira alguma, filho. Prossiga - interrompeu o diretor.
- Certo. Então, os calouros e veteranos se juntaram, e fizemos uma campanha de divulgação do time aqui do Horacio Macedo. Também recolhemos assinaturas de praticamente todos os alunos dos dois turnos, e resolvemos entregar este documento ao senhor - disse, enquanto pegava a pasta com o documento redigido na mochila.
- Ok, vou analisar. Mas teria como você resumir do que se trata? - indagou.
- Bom, é um pedido em nome de todos, para que a diretoria faça um investimento na quadra, e em estrutura para o time, como bolas, uniformes e afins. Queremos ajudar no que for possível, para que todos juntos possam, através do futebol, divulgar o nome da escola da melhor maneira que conseguirmos.
- Perfeito. A ideia me parece ótima. Temos apenas a questão de verba, mão-de-obra, essas coisas. Você deve saber como é. Por sermos um colégio público, tudo deve passar pelo crivo do governo antes de ser feito. Mas, se é um desejo de tanta gente - disse, observando espantado a quantidade de assinaturas - farei tudo o que puder. Nem que isso envolva sacrifícios pessoais, se é que me entende.
- Entendo sim, diretor. E fico muito feliz com a sua resposta. Bom, era só isso mesmo. Vou lá, algumas latas de tinta me esperam. - disse, enquanto se afastava ouvindo a risada do diretor, que ainda lia o documento.
Gustavo correu para a entrada da quadra, e lá encontrou Anderson, que o aguardava ansiosamente.
- E aí, cara? Fiquei daqui vendo o diretor olhando o papel, e rindo. Como foi?
- Ele falou que vai fazer o possível, mas que aprovou a ideia, e ficou espantado com a quantidade de gente que contribuiu com assinaturas e se dispôs a ajudar. Acho que ele mesmo não sabia quanta gente aqui gostava de futebol.
- Puta que pariu! Então vai dar tudo certo! - exclamou, sendo interrompido pelo grito de um dos veteranos. Era a ordem para entrarem na quadra.
A festa para Gustavo e Anderson foi particularmente mais divertida. Até então, só os dois sabiam da conversa com o senhor Jaime. Mas, depois de todo o banho de tinta, Alessandro e os outros rapazes do time vieram procurá-lo. Sabendo da notícia, logo trataram de espalhá-la. Grande parte dos alunos, apesar de terem gostado da ideia, ainda não tinham dimensão dos projetos que o time e Gustavo tinham em mente. No fundo, nem eles mesmos sabiam onde aquilo poderia chegar.
Algumas horas depois, já no fim da festa, Gustavo viu o diretor entrando cuidadosamente na quadra e se dirigindo a Alessandro. Imediatamente, ele correu até Gustavo.
- Cara, vamos ligar o microfone lá perto do gol, o diretor vai anunciar uma parada muito foda! Vai, vai! - dizia, correndo para improvisar um palco com caixotes.
- Alunos, gostaria da atenção de vocês. - disse o diretor, se ajustando ao palco. Enquanto isso, os alunos do segundo ano no intervalo se aproximavam da quadra. - Estive hoje conversando com o aluno Gustavo, do primeiro ano, e recebi de suas mãos um documento que continha assinaturas de praticamente todos os alunos daqui. Falava sobre o futebol, e os projetos que ele e o time da escola têm. Me foi solicitado que fizesse um esforço maior afim de concluir as obras na quadra. E eu venho aqui anunciar que, depois de alguns telefonemas e e-mails, consegui um auxílio para que as obras na quadra sejam terminadas. De imediato, instalaremos as lâmpadas, já que o teto foi o primeiro a ser reformado e se encontra em perfeito estado. Como o material da arquibancada já está todo aqui, só precisaremos de alguns dias para que sejam montados os degraus. Talvez só demore um pouco mais para fazermos os uniformes, mas caso alguém tenha uma sugestão barata e eficaz, fique a vontade para citá-la. Fui informado de que, até quinta-feira, o time deverá enviar a inscrição para a Liga Municipal. Eu ordeno que façam isso! - disse, para risada geral. - Encerro pedindo desculpas a todos, acho que não tive noção do quanto isso poderia ser importante para vocês. Muito obrigado pela atenção dada.
O discurso do diretor foi sucedido por uma enorme salva de palmas, e se ouvia de longe a comemoração dos alunos. Alessandro abraçou Gustavo, feliz.
- Valeu, calouro! Agora é tudo nosso! Vamo ganhar de geral! Agora a coisa funciona!
O ano não poderia ter começado melhor no Horacio Macedo.
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